Solidão afeta saúde mental dos brasileiros

A solidão está entre os fatores mais fortemente associados a indicadores desfavoráveis de saúde mental no Brasil. É o que revela o Panorama da Saúde Mental 2026, levantamento realizado pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, que ouviu 4.601 pessoas em diferentes regiões do país. Segundo os resultados divulgados em outubro de 2026, 36,5% dos participantes sentiram-se sozinhos ao menos uma vez nas duas semanas anteriores à pesquisa. Os dados também apontam uma associação importante entre a convivência com amigos e melhores indicadores de bem-estar psicológico.

O resultado chama a atenção para uma dimensão da saúde mental que nem sempre recebe a atenção necessária: a qualidade das relações humanas. Embora sono, condições financeiras, trabalho e saúde física sejam aspectos importantes da qualidade de vida, a possibilidade de estabelecer vínculos significativos, sentir-se acolhido e contar com outras pessoas também faz parte do contexto em que o bem-estar emocional se desenvolve.

Isso não significa que a solidão seja a única causa de sofrimento psicológico ou que manter uma vida social ativa resolva todos os problemas emocionais. A pesquisa identifica associações entre diferentes experiências e indicadores de saúde mental, mas não permite concluir, por si só, que uma situação necessariamente provoque a outra. Ainda assim, os resultados reforçam a importância de compreender a solidão como uma questão que envolve tanto a experiência individual quanto as condições sociais em que as pessoas vivem.

Resumo do artigo: principais pontos de atenção

  • 36,5% dos participantes relataram solidão ao menos uma vez nas duas semanas anteriores à pesquisa.
  • Entre as pessoas que se sentiram sozinhas três vezes ou mais, o indicador de saúde mental foi de 383 pontos, contra 782 entre aquelas que não relataram solidão.
  • Encontrar amigos esteve associado a melhores indicadores de saúde mental, embora o levantamento não prove que esses encontros, isoladamente, sejam responsáveis pelos resultados.
  • A solidão não é sinônimo de morar sozinho: uma pessoa pode viver só e manter relações satisfatórias, enquanto outra pode estar cercada de pessoas e sentir falta de conexão.
  • Preocupações financeiras, conflitos familiares, sono insuficiente e outras condições de vida também integram o cenário investigado.
  • A inteligência artificial pode oferecer uma interação momentânea, mas não substitui automaticamente a reciprocidade dos vínculos humanos nem o acompanhamento profissional quando necessário.

O que a pesquisa revela sobre solidão e saúde mental

O Panorama da Saúde Mental 2026 é a quinta edição de um levantamento desenvolvido pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel. A pesquisa investiga indicadores relacionados à saúde mental da população brasileira e procura compreender como hábitos, comportamentos e condições de vida se relacionam com o bem-estar psicológico.

Um dos principais instrumentos utilizados é o Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (ICASM), apresentado em uma escala de zero a mil pontos. O indicador reúne dimensões relacionadas à confiança, à vitalidade e ao foco. Em termos gerais, pontuações mais elevadas representam melhores resultados nas dimensões avaliadas pelo instrumento.

Na edição de 2026, a média nacional foi de aproximadamente 671 pontos. Entretanto, as diferenças observadas entre grupos que relataram experiências distintas de solidão chamaram a atenção dos pesquisadores.

Entre os participantes que disseram ter se sentido sozinhos três vezes ou mais no período investigado, o ICASM ficou em 383 pontos. Entre aqueles que não relataram esse sentimento, o resultado chegou a 782 pontos.

A diferença é expressiva, mas precisa ser interpretada corretamente. O índice não representa uma nota individual de saúde mental nem estabelece um diagnóstico clínico. Ele é um indicador de pesquisa utilizado para comparar resultados entre grupos e acompanhar tendências da população.

Além disso, como o levantamento é observacional, não é possível afirmar que a solidão tenha sido a causa direta da diferença. Outros fatores, como dificuldades financeiras, conflitos nos relacionamentos, condições de saúde e experiências de discriminação, também podem estar envolvidos.

O principal achado, portanto, é a força da associação observada entre a experiência de solidão e indicadores menos favoráveis de saúde mental.

Solidão não é a mesma coisa que estar sozinho

Uma das distinções mais importantes para compreender os resultados é a diferença entre estar fisicamente sozinho e experimentar solidão.

O isolamento social descreve uma situação objetiva em que uma pessoa dispõe de poucas relações, interações ou oportunidades de convivência. A solidão, por sua vez, é uma experiência subjetiva: surge quando existe uma diferença entre as conexões que alguém tem e aquelas de que gostaria ou necessita.

Essa diferença ajuda a compreender por que duas pessoas com rotinas semelhantes podem experimentar níveis muito distintos de bem-estar emocional.

Uma pessoa pode morar sozinha, trabalhar de forma independente e ter poucos contatos presenciais durante a semana, mas manter amizades próximas, relações familiares satisfatórias e uma rede de apoio confiável. Outra pode morar com familiares, trabalhar em um ambiente movimentado e utilizar redes sociais diariamente, mas sentir que não tem com quem conversar de maneira aberta ou pedir ajuda quando necessário.

A qualidade e o significado das relações podem ser tão importantes quanto a quantidade de contatos sociais.

Isso não significa que a convivência frequente seja desnecessária. O ponto central é que estar fisicamente próximo de outras pessoas não garante, por si só, a sensação de pertencimento, compreensão ou apoio.

Por que a solidão pode afetar o bem-estar emocional?

As relações humanas podem oferecer diferentes formas de apoio. Uma conversa com alguém de confiança pode ajudar a organizar pensamentos, compartilhar preocupações e perceber uma situação por outras perspectivas. A convivência também pode proporcionar experiências agradáveis, sensação de pertencimento e oportunidades de participação na comunidade.

Quando essas possibilidades estão ausentes ou são insuficientes, uma pessoa pode sentir que precisa lidar sozinha com dificuldades que gostaria de dividir com alguém.

Entretanto, a solidão não tem uma única origem. Ela pode estar relacionada a mudanças de cidade, aposentadoria, separação, luto, dificuldades para estabelecer relacionamentos, conflitos familiares, problemas de saúde, limitações financeiras ou falta de espaços acessíveis de convivência.

Em algumas situações, dificuldades emocionais também podem tornar mais difícil iniciar conversas, manter relações ou participar de atividades coletivas. Isso ajuda a entender por que a relação entre solidão e saúde mental pode funcionar nos dois sentidos.

Por essa razão, não é adequado tratar a solidão como sinal automático de um transtorno psicológico ou atribuí-la exclusivamente a uma suposta incapacidade individual de se relacionar.

Quais grupos relataram mais solidão?

Os resultados divulgados do Panorama da Saúde Mental 2026 apontaram diferenças na frequência do sentimento de solidão entre grupos de participantes.

Entre os solteiros, 51,7% relataram a experiência, em comparação com 26,6% dos casados. O levantamento também encontrou um percentual de 52,5% entre pessoas que relataram ter diagnóstico de transtorno mental.

Outro resultado chamou a atenção para o uso de redes sociais: 46,8% dos participantes que as utilizavam por três horas ou mais ao dia relataram solidão, em comparação com 26,1% entre os usuários classificados como moderados na pesquisa.

Entre as pessoas que relataram brigas frequentes com familiares, o percentual chegou a 84,2%.

Esses números mostram diferenças importantes entre os grupos investigados, mas não devem ser interpretados como regras universais. Ser solteiro, utilizar redes sociais ou ter um diagnóstico de saúde mental não significa necessariamente que alguém sentirá solidão.

Também não é possível concluir, a partir dessas associações, que o uso prolongado das redes sociais provoque solidão. Pessoas que já se sentem isoladas podem recorrer mais às plataformas digitais, e diferentes condições de vida podem influenciar simultaneamente os dois fenômenos.

O papel dos conflitos familiares

As relações familiares podem representar uma fonte importante de apoio, mas também podem se tornar uma fonte de tensão quando predominam discussões, desentendimentos ou falta de espaço para expressar sentimentos.

O resultado observado entre participantes que relataram brigas frequentes sugere que o contexto dos relacionamentos merece atenção. Não basta considerar se alguém tem familiares por perto: é importante compreender como essas relações funcionam e se oferecem segurança, respeito e apoio.

Quando os conflitos são recorrentes, pode ser útil identificar quais situações costumam desencadeá-los, estabelecer limites razoáveis e buscar formas de comunicação mais respeitosas, desde que isso seja seguro e viável. Em situações de violência, coerção ou ameaça, a prioridade deve ser a proteção, e não a manutenção do contato a qualquer custo.

A presença de vínculos familiares não garante bem-estar, assim como a ausência de uma relação familiar próxima não impede que uma pessoa construa outras redes de apoio.

Encontrar amigos aparece associado a melhores indicadores

Entre os fatores investigados, os encontros com amigos se destacaram pela associação com melhores resultados no ICASM.

Os participantes que encontraram amigos nas duas semanas anteriores à pesquisa apresentaram um índice de 737 pontos, enquanto aqueles que não tiveram esse tipo de encontro registraram 539 pontos.

A diferença sugere que oportunidades de convivência podem integrar um contexto favorável ao bem-estar emocional. Contudo, é importante manter a interpretação dentro dos limites dos dados: o levantamento não demonstra que encontrar amigos, isoladamente, cause a melhora dos indicadores.

Também é possível que pessoas com melhores condições emocionais tenham mais facilidade para participar de encontros, ou que outros fatores contribuam para ambas as situações.

Mesmo com essa ressalva, a convivência pode ter um significado prático relevante. Encontrar um amigo para conversar, participar de uma atividade coletiva ou retomar o contato com alguém de confiança são possibilidades de ampliar as oportunidades de conexão, desde que façam sentido para a realidade de cada pessoa.

Atividades coletivas também podem favorecer o pertencimento

O levantamento identificou associações entre melhores indicadores de saúde mental e outras atividades, incluindo trabalho voluntário, prática de atividade física e frequência a igrejas ou templos.

Essas experiências são diferentes entre si, mas podem oferecer oportunidades de convivência, objetivos compartilhados e participação em grupos.

Uma atividade física coletiva, por exemplo, pode reunir pessoas com interesses semelhantes. O voluntariado pode proporcionar uma sensação de participação social. Já uma comunidade religiosa pode oferecer convivência, apoio e espaços de troca para quem deseja participar desse tipo de ambiente.

Essas possibilidades não devem ser transformadas em uma receita obrigatória. Nem toda pessoa se identifica com atividades religiosas, esportes coletivos ou voluntariado. A escolha depende das preferências individuais, da acessibilidade, da disponibilidade de tempo e das condições materiais de cada um.

O aspecto mais relevante é a possibilidade de encontrar formas de participação que sejam significativas, respeitosas e sustentáveis.

Solidão também é uma questão de saúde pública

A discussão sobre solidão ultrapassa a esfera dos relacionamentos individuais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a importância da conexão social para a saúde e destaca que a solidão e o isolamento social estão associados a consequências relevantes para o bem-estar físico e psicológico.

As evidências internacionais relacionam a desconexão social a maior risco de problemas como depressão e doenças cardiovasculares. Também existem associações com outros desfechos de saúde, embora a magnitude dos efeitos e os mecanismos envolvidos possam variar conforme a população, o tipo de isolamento e as condições estudadas.

A OMS também ressalta que as conexões sociais dependem de fatores que vão além da disposição individual para encontrar outras pessoas. Renda, mobilidade, condições de saúde, discriminação, disponibilidade de transporte e existência de espaços comunitários podem influenciar as oportunidades de convivência.

Uma pessoa pode desejar participar de atividades locais, mas não ter dinheiro para pagar o transporte, encontrar dificuldades para se locomover ou não dispor de opções seguras e acessíveis perto de casa. Nesses casos, recomendar simplesmente que ela saia mais ou conheça novas pessoas não resolve as barreiras existentes.

O que são as iniciativas de prescrição social?

A chamada prescrição social é uma abordagem utilizada em alguns sistemas de saúde para conectar pessoas a atividades e recursos comunitários que possam contribuir para seu bem-estar.

Dependendo do contexto e dos serviços disponíveis, essas iniciativas podem envolver grupos de caminhada, oficinas, atividades culturais, hortas comunitárias, voluntariado ou outros espaços de participação social.

A proposta é ampliar as possibilidades de cuidado, considerando que a saúde também se relaciona com o ambiente, as oportunidades de convivência e as condições de vida.

Isso não significa substituir tratamentos médicos ou psicológicos por atividades comunitárias. A participação social pode complementar outras formas de cuidado, mas sua adequação depende das necessidades de cada pessoa e da qualidade dos recursos disponíveis.

No Brasil, a discussão reforça a importância de espaços públicos acessíveis, atividades gratuitas, transporte adequado, serviços de saúde próximos e iniciativas comunitárias que facilitem a participação de diferentes grupos da população.

Inteligência artificial pode aliviar a solidão?

O Panorama da Saúde Mental 2026 também investigou a utilização de ferramentas de inteligência artificial em situações relacionadas à vida emocional.

Segundo os dados divulgados, 86,4% dos entrevistados já haviam utilizado alguma ferramenta de inteligência artificial. Entretanto, apenas 31,3% declararam possuir conhecimento médio ou alto sobre o tema.

No campo da saúde mental, 15% disseram ter recorrido à IA em momentos de crise, 9,1% relataram ter utilizado chatbots para simular sessões de terapia e 8,8% afirmaram ter recorrido à tecnologia para se sentir menos sozinhos ou buscar interação.

Entre os participantes que relataram solidão três vezes ou mais no período pesquisado, 32,1% disseram ter buscado companhia na inteligência artificial, em comparação com 1,8% daqueles que não relataram solidão.

Esses resultados mostram que algumas pessoas utilizam ferramentas digitais para conversar, organizar pensamentos ou buscar uma forma imediata de interação. No entanto, os dados não demonstram que essas ferramentas resolvam a solidão ou produzam benefícios clínicos.

A diferença entre uma conversa digital e um vínculo humano

Um chatbot pode responder rapidamente, ajudar a estruturar uma reflexão ou oferecer informações gerais. Essa disponibilidade pode explicar parte de seu uso em momentos em que uma pessoa deseja conversar.

Ainda assim, uma interação com inteligência artificial não equivale automaticamente a uma relação humana recíproca. As ferramentas não substituem integralmente a experiência de compartilhar a vida com alguém que possui sua própria história, participa de uma relação real e pode oferecer apoio concreto em diferentes situações.

Também é importante considerar que respostas produzidas por sistemas de IA podem conter erros, interpretações inadequadas ou informações incompletas. Uma ferramenta genérica não deve ser tratada como substituta de avaliação psicológica ou psiquiátrica.

A inteligência artificial pode, em determinadas circunstâncias, servir como um recurso complementar para organizar dúvidas ou encontrar informações. O cuidado necessário é evitar que ela se torne o único canal de apoio de alguém que enfrenta sofrimento persistente ou precisa de ajuda especializada.

Quando a solidão está presente, o objetivo não precisa ser abandonar a tecnologia, mas avaliar como utilizá-la sem perder de vista as oportunidades de construir ou fortalecer conexões humanas.

Dinheiro, sono e outras condições também influenciam o cenário

Embora a solidão tenha se destacado pela associação com o ICASM, ela não foi o único aspecto relevante do levantamento.

A preocupação financeira foi relatada por 78,1% dos participantes, tornando-se uma das experiências mais frequentes investigadas. Entre aqueles que se preocuparam com dinheiro três vezes ou mais no período analisado, o índice de saúde mental ficou em aproximadamente 558 pontos, contra 825 entre os que não relataram essa preocupação.

Esses dados evidenciam a importância de considerar as condições materiais ao discutir bem-estar emocional. Insegurança financeira pode estar relacionada a preocupações com moradia, alimentação, dívidas, trabalho e capacidade de atender às necessidades da família.

O sofrimento associado a essas dificuldades não deve ser tratado como uma falha pessoal ou como resultado de uma incapacidade de pensar positivamente. Problemas econômicos envolvem circunstâncias concretas e, muitas vezes, exigem respostas sociais, familiares e institucionais, além de recursos individuais de enfrentamento.

O levantamento também apresentou informações sobre sono e energia. Segundo os dados divulgados, 70,6% dos participantes dormiram menos de seis horas em pelo menos uma ocasião no período investigado, enquanto 68,8% relataram cansaço ou pouca energia.

Esses percentuais não significam que todos os participantes apresentassem privação de sono persistente ou algum problema clínico. Relatar uma noite curta de sono é diferente de apresentar dificuldades frequentes ou prolongadas para dormir.

Ainda assim, o descanso, as exigências cotidianas, as condições de trabalho e o bem-estar emocional podem se relacionar de maneiras complexas. Preocupações constantes podem dificultar o repouso, enquanto dormir pouco pode tornar mais difícil lidar com as demandas do dia seguinte.

O mesmo cuidado vale para os dados relacionados a assédio, preconceito e conflitos familiares. Essas experiências precisam ser compreendidas em seu contexto, sem reduzir questões sociais e relacionais a explicações exclusivamente individuais.

O que pode ajudar a ampliar as conexões sociais no cotidiano?

Os resultados da pesquisa não oferecem uma fórmula universal para combater a solidão. Entretanto, a compreensão de que os vínculos sociais importam pode ajudar a identificar oportunidades de convivência e apoio que façam sentido para cada pessoa.

Algumas possibilidades incluem:

  • Retomar um contato significativo: enviar uma mensagem ou telefonar para alguém com quem exista confiança pode ser um primeiro passo para restabelecer a comunicação.
  • Criar oportunidades regulares de convivência: combinar um encontro, caminhar com alguém ou reservar um momento para conversar pode facilitar a continuidade dos vínculos.
  • Participar de atividades de interesse pessoal: grupos culturais, esportivos, educativos, comunitários ou voluntários podem favorecer encontros com pessoas que compartilham interesses semelhantes.
  • Valorizar a qualidade das relações: manter muitos contatos não significa necessariamente sentir-se acolhido. Relações respeitosas, nas quais seja possível conversar sem medo de humilhação, podem ser especialmente importantes.
  • Reconhecer as barreiras concretas: falta de dinheiro, mobilidade reduzida, horários de trabalho, responsabilidades familiares ou ausência de espaços acessíveis podem dificultar a participação social. As alternativas precisam considerar essas limitações.
  • Buscar apoio quando necessário: conversar com um profissional qualificado pode ajudar a compreender dificuldades persistentes de relacionamento, sofrimento emocional ou obstáculos que estejam prejudicando a rotina.

Essas possibilidades não devem ser interpretadas como obrigações. Algumas pessoas precisam de tempo para recuperar a confiança nas relações; outras enfrentam situações que tornam o contato social difícil ou inseguro. O ritmo e a forma de buscar conexão podem variar.

Também não é necessário esperar que a solidão se torne intensa para valorizar os vínculos. Manter contato com pessoas importantes, participar de atividades prazerosas e construir redes de apoio são formas de cuidar das relações ao longo da vida.

Quando vale a pena buscar ajuda profissional?

Sentir solidão em determinados momentos é uma experiência humana possível, especialmente diante de mudanças, perdas ou períodos de transição. Isso, por si só, não significa que exista um transtorno mental.

Entretanto, quando a sensação de desconexão se torna persistente, causa sofrimento significativo ou vem acompanhada de dificuldades para trabalhar, estudar, dormir, cuidar de si ou manter atividades habituais, pode ser importante procurar orientação profissional.

Psicólogos, psiquiatras e outros profissionais de saúde habilitados podem avaliar as necessidades individuais e ajudar a compreender os fatores envolvidos. A escolha do atendimento depende da situação, e não é possível determinar a necessidade de tratamento apenas com base nos resultados de uma pesquisa populacional.

Também é importante não confundir a busca por ajuda com a ideia de que a pessoa precisa aprender a resolver tudo sozinha. Em alguns casos, o apoio profissional pode ajudar a lidar com dificuldades emocionais; em outros, a principal necessidade pode incluir mudanças nas condições de vida, proteção contra situações prejudiciais ou acesso a recursos sociais.

Se houver sofrimento intenso ou risco imediato à segurança, é importante procurar atendimento de emergência ou um serviço de saúde. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional pelo telefone 188, gratuitamente, em situações de necessidade de conversar. O CVV não substitui atendimento de emergência.

Perguntas frequentes sobre solidão e saúde mental

Sentir solidão significa ter um transtorno mental?

Não. A solidão é uma experiência subjetiva e pode ocorrer em diferentes fases da vida. Sua presença isolada não estabelece um diagnóstico. Quando o sentimento é persistente, provoca sofrimento importante ou interfere na rotina, pode ser útil buscar avaliação profissional.

Morar sozinho aumenta necessariamente a solidão?

Não. Morar sozinho e sentir solidão são situações diferentes. Uma pessoa pode viver só e manter relações satisfatórias, apoio social e uma rotina significativa. Outra pode conviver diariamente com muitas pessoas e ainda sentir falta de conexão emocional.

As redes sociais provocam solidão?

A pesquisa brasileira encontrou uma associação entre uso prolongado de redes sociais e maior frequência de solidão, mas isso não comprova uma relação direta de causa e efeito. A experiência depende de vários fatores, incluindo a forma de utilização das plataformas, a qualidade dos relacionamentos e as condições de vida.

Conversar com inteligência artificial pode substituir a companhia humana?

Não de forma equivalente. A IA pode oferecer interação e ajudar a organizar pensamentos, mas não substitui integralmente relações humanas recíprocas nem o acompanhamento profissional quando necessário. Se a tecnologia se tornar a única fonte de apoio durante um período de sofrimento persistente, vale considerar outras possibilidades de conexão e cuidado.

O que a pesquisa ensina sobre a importância dos vínculos humanos

O Panorama da Saúde Mental 2026 destaca a solidão como uma das experiências mais fortemente associadas a indicadores desfavoráveis de saúde mental entre os fatores investigados. Ao mesmo tempo, os resultados mostram que encontros com amigos e participação em atividades coletivas estão associados a indicadores mais favoráveis.

A principal contribuição desses dados é ampliar a compreensão do bem-estar emocional para além das características individuais. Saúde mental também se relaciona com a qualidade dos relacionamentos, as oportunidades de convivência, as condições econômicas e a possibilidade de contar com apoio em momentos difíceis.

É essencial, porém, respeitar os limites da pesquisa. As diferenças observadas não demonstram, isoladamente, que a solidão cause os resultados encontrados ou que a participação social garanta melhora da saúde mental. As experiências humanas são influenciadas por múltiplos fatores que podem atuar simultaneamente.

Ainda assim, os achados reforçam uma questão importante: criar condições para que as pessoas estabeleçam relações significativas é parte relevante da promoção do bem-estar. Isso envolve tanto iniciativas individuais possíveis quanto ambientes comunitários acessíveis, relações respeitosas e políticas públicas que reduzam as barreiras à convivência.

A solidão não deve ser tratada como uma falha pessoal. Compreender suas diferentes origens permite abordar o tema com mais sensibilidade, reconhecer quando é necessário buscar apoio e valorizar as conexões humanas sem ignorar a complexidade da saúde mental.

Fontes e referências

  1. Instituto Cactus. 5ª edição do Panorama da Saúde Mental traz dados inéditos sobre solidão e inteligência artificial. Publicado em 15 de outubro de 2026. Apresentação institucional dos principais resultados da pesquisa realizada em parceria com a AtlasIntel.
    https://institutocactus.org.br/5a-edicao-do-panorama-da-saude-mental-traz-dados-ineditos-sobre-solidao-e-inteligencia-artificial/
  2. Folha de S.Paulo. Solidão é o fator mais ligado à pior saúde mental no Brasil, mostra pesquisa. Outubro de 2026. Reportagem jornalística com os resultados do Panorama da Saúde Mental 2026 e comentários de especialistas.
    https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/10/solidao-e-o-fator-mais-ligado-a-pior-saude-mental-no-brasil-mostra-pesquisa.shtml
  3. Organização Mundial da Saúde (OMS). Social connection. Publicado em 30 de junho de 2025. Material institucional que explica os conceitos de conexão social, isolamento e solidão e apresenta informações sobre seus impactos na saúde.
    https://www.who.int/news-room/questions-and-answers/item/social-connection
  4. Organização Mundial da Saúde (OMS). From loneliness to social connection: charting a path to healthier societies — Report of the WHO Commission on Social Connection. Publicado em 30 de junho de 2025. Relatório internacional sobre a dimensão social da saúde, os impactos da desconexão e possíveis respostas comunitárias e institucionais.
    https://www.who.int/publications/i/item/978240112360

Nota sobre as fontes: os dados específicos do levantamento brasileiro foram baseados na divulgação institucional do Instituto Cactus e na reportagem da Folha de S.Paulo. As fontes da OMS foram utilizadas para contextualizar os conceitos de solidão e conexão social. A interpretação dos resultados do levantamento permanece limitada ao caráter observacional da pesquisa.

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