Solidão afeta 36,5% dos brasileiros
A solidão foi identificada como o fator mais fortemente associado a indicadores negativos de saúde mental no Brasil, segundo o levantamento Panorama da Saúde Mental 2026, realizado pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel. A pesquisa ouviu 4.601 pessoas entre abril e junho de 2026 e identificou que 36,5% dos entrevistados relataram sentir solidão. Entre os participantes que disseram ter experimentado esse sentimento três vezes ou mais no período pesquisado, o Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (ICASM) foi de 383 pontos, em uma escala de zero a mil. Entre aqueles que não relataram solidão, a pontuação chegou a 782. Os resultados mostram uma associação expressiva entre a experiência de desconexão social e indicadores menos favoráveis de bem-estar psicológico, embora não comprovem que a solidão, isoladamente, seja a causa desses resultados.
O levantamento também identificou associações entre melhores indicadores de saúde mental e experiências como encontrar amigos, praticar atividades físicas, participar de ações voluntárias e frequentar comunidades religiosas. Ao mesmo tempo, preocupações financeiras, cansaço e dificuldades relacionadas ao sono apareceram como aspectos relevantes da vida cotidiana dos entrevistados.
Os dados reforçam uma questão importante: a saúde mental não depende apenas das características individuais, mas também da qualidade dos relacionamentos, das condições de vida e das oportunidades de convivência. Compreender essa relação ajuda a olhar para a solidão sem julgamentos e a reconhecer que fortalecer vínculos pode exigir tanto iniciativas pessoais quanto melhores condições sociais.
Resumo do artigo: principais pontos de atenção
- 36,5% dos entrevistados relataram solidão, segundo o Panorama da Saúde Mental 2026.
- O ICASM foi de 383 pontos entre pessoas que relataram solidão três vezes ou mais, contra 782 entre aquelas que não relataram esse sentimento.
- A solidão não é sinônimo de estar fisicamente sozinho: a qualidade dos vínculos e a percepção de apoio também importam.
- Encontros com amigos, atividade física e participação comunitária apareceram associados a melhores indicadores de saúde mental.
- Preocupações financeiras, cansaço e sono insuficiente também foram frequentes no levantamento.
- A relação entre solidão e sofrimento psicológico pode ocorrer nos dois sentidos, e os dados observacionais não demonstram, por si só, uma relação de causa e efeito.
O que a pesquisa revela sobre a solidão no Brasil
O Panorama da Saúde Mental 2026 utilizou o Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (ICASM), uma medida que varia de zero a mil pontos. Nesse indicador, pontuações mais altas correspondem a resultados mais favoráveis de saúde mental. A média nacional registrada foi de 671 pontos.
A diferença entre os participantes que relataram solidão e aqueles que não relataram o sentimento chamou a atenção dos pesquisadores. Entre as pessoas que se sentiram sozinhas três vezes ou mais durante o período investigado, a pontuação média foi de 383. Entre aquelas que não relataram solidão, o índice alcançou 782 pontos.
Essa diferença não significa que toda pessoa solitária apresente um transtorno mental, nem que todas as pessoas com indicadores desfavoráveis de saúde mental estejam nessa situação por causa da solidão. O resultado mostra que, dentro da população pesquisada, a experiência de solidão estava fortemente associada a condições menos favoráveis de bem-estar psicológico.
Também é importante considerar que a solidão foi investigada pela primeira vez nessa edição do levantamento. Portanto, embora a pesquisa integre uma série iniciada em 2023, não é possível utilizar esse dado específico para afirmar que a solidão aumentou ou diminuiu em relação aos anos anteriores.
Quais grupos relataram mais solidão?
Segundo os resultados divulgados pela imprensa, o sentimento apareceu com maior frequência entre alguns grupos específicos:
- Pessoas solteiras.
- Participantes que relataram diagnóstico de transtorno mental.
- Pessoas que utilizavam redes sociais por três horas ou mais por dia.
- Entrevistados que relataram brigas frequentes com familiares.
Entre as pessoas que relataram conflitos familiares frequentes, 84,2% disseram sentir-se sozinhas. O resultado chama a atenção para a importância da qualidade dos relacionamentos: ter contato frequente com outras pessoas não garante que alguém se sinta acolhido, compreendido ou emocionalmente amparado.
Entretanto, esses dados não demonstram que estar solteiro, utilizar redes sociais ou ter conflitos familiares provoque necessariamente solidão. Os grupos podem apresentar outras diferenças importantes, e diversos fatores podem atuar simultaneamente. Os números devem ser interpretados como associações observadas no levantamento, não como regras aplicáveis a todas as pessoas.
Solidão não é o mesmo que estar sozinho
Uma das distinções mais importantes para compreender o tema é a diferença entre solidão e isolamento social. Embora os conceitos estejam relacionados, eles não representam a mesma experiência.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) diferencia a solidão, que envolve uma percepção subjetiva de desconexão, do isolamento social, que diz respeito à escassez objetiva de relacionamentos e interações sociais. Uma pessoa pode ter poucos contatos e estar satisfeita com a própria rotina, enquanto outra pode conviver diariamente com familiares, colegas ou conhecidos e ainda sentir falta de proximidade emocional.
Organização Mundial da Saúde
A qualidade dos vínculos também faz diferença. Conversar com alguém não significa necessariamente sentir-se ouvido, respeitado ou compreendido. Relações marcadas por conflitos constantes, indiferença ou ausência de apoio podem contribuir para a sensação de desconexão, mesmo quando existe convivência frequente.
Por outro lado, morar sozinho, não estar em um relacionamento amoroso ou preferir atividades individuais não significa, por si só, vivenciar solidão prejudicial. A necessidade de convivência varia de pessoa para pessoa, e a quantidade de contatos não determina sozinha a qualidade da vida emocional.
Essa perspectiva evita transformar uma experiência humana complexa em um problema individual simplificado. A questão central não é quantas pessoas alguém conhece, mas como percebe suas relações, se encontra apoio quando precisa e se consegue estabelecer conexões que façam sentido para sua vida.
Como a solidão se relaciona com a saúde mental
A associação observada no levantamento brasileiro acompanha uma preocupação mais ampla da comunidade internacional. Em junho de 2025, a OMS publicou o relatório From loneliness to social connection: charting a path to healthier societies, elaborado pela Comissão da OMS sobre Conexão Social. O documento destaca que a solidão e o isolamento social são fenômenos disseminados, com consequências relevantes para a saúde, o bem-estar e a sociedade.
Organização Mundial da Saúde
A conexão social envolve mais do que a presença de outras pessoas. Ela inclui a possibilidade de compartilhar experiências, receber apoio, participar de atividades coletivas e manter relações satisfatórias. Quando essas oportunidades são insuficientes ou não correspondem às necessidades individuais, a pessoa pode experimentar uma sensação persistente de desconexão.
Uma relação que pode ocorrer nos dois sentidos
O levantamento Panorama da Saúde Mental 2026 não permite concluir que a solidão seja, isoladamente, a causa da piora dos indicadores de saúde mental. A especialista Mariana Rae, do Instituto Cactus, ressaltou à Folha de S.Paulo que a relação provavelmente acontece nos dois sentidos.
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Isso significa que diferentes situações podem se combinar:
- Uma pessoa que enfrenta sofrimento emocional pode sentir menos disposição para conversar, sair de casa ou manter contato com amigos.
- Alguém que passa muito tempo sem relações significativas pode sentir falta de apoio e ter mais dificuldade para lidar com os desafios cotidianos.
- Conflitos familiares, dificuldades financeiras, problemas no trabalho ou limitações de mobilidade podem reduzir as oportunidades de convivência.
- A ausência de apoio em momentos difíceis pode tornar os problemas cotidianos mais pesados, especialmente quando a pessoa sente que precisa enfrentá-los sozinha.
Essas possibilidades não acontecem da mesma forma com todos. Elas ajudam a compreender por que a solidão pode estar relacionada a diferentes dimensões da vida e por que não é adequado atribuí-la a uma única causa.
A associação estatística indica que dois fenômenos aparecem relacionados, mas não demonstra, por si só, qual deles surgiu primeiro nem se existe uma relação direta de causa e efeito. Para esclarecer essas questões, são necessárias pesquisas que acompanhem as pessoas ao longo do tempo e considerem diferentes fatores individuais e sociais.
O que apareceu associado a melhores indicadores de saúde mental
Além de identificar a relação entre solidão e indicadores menos favoráveis, a pesquisa encontrou associações entre determinadas experiências sociais e pontuações mais altas no ICASM.
Um dos resultados mais expressivos envolveu o contato com amigos. Entre os entrevistados que encontraram amigos nas duas semanas anteriores à pesquisa, a pontuação média foi de 737 pontos. Entre aqueles que não tiveram esses encontros, o índice ficou em 539 pontos.
Esses números não provam que encontrar amigos, por si só, produza determinada melhora na saúde mental. Pessoas com maior bem-estar podem ter mais disposição para socializar, por exemplo. Ainda assim, o resultado reforça a importância de investigar como as relações sociais se relacionam com a qualidade de vida.
O levantamento também encontrou associações favoráveis envolvendo atividade física, trabalho voluntário e participação em igrejas ou templos.
| Experiência investigada | Resultado observado |
|---|---|
| Encontro com amigos nas duas semanas anteriores | ICASM de 737 pontos |
| Ausência de encontro com amigos no período | ICASM de 539 pontos |
| Média nacional em 2026 | ICASM de 671 pontos |
Fonte: reportagem da Folha de S.Paulo sobre o Panorama da Saúde Mental 2026. Os resultados representam associações observadas no levantamento, não estimativas do efeito causal dessas experiências.
Por que atividades compartilhadas podem ser relevantes?
Atividades coletivas podem criar oportunidades de convivência, troca de experiências e construção de vínculos. Um grupo de caminhada, uma oficina cultural, um curso, uma atividade esportiva ou um projeto de voluntariado pode oferecer um ambiente em que as pessoas se encontrem regularmente em torno de um interesse comum.
Para quem sente falta de contato social, essa estrutura pode tornar mais fácil iniciar conversas e conhecer pessoas sem a pressão de precisar estabelecer uma amizade imediatamente. A convivência pode se desenvolver aos poucos, à medida que os participantes passam a compartilhar experiências e a se reconhecer naquele ambiente.
Isso não significa que todas as pessoas precisem participar de grupos, frequentar instituições religiosas ou ampliar continuamente sua vida social. O valor de uma atividade depende de ela fazer sentido para a pessoa e ser compatível com suas necessidades, seus interesses e suas condições de vida.
A participação comunitária também depende de oportunidades concretas. Transporte, segurança, horários de trabalho, responsabilidades familiares, acessibilidade e custos podem facilitar ou dificultar o envolvimento em atividades coletivas.
Solidão, dificuldades financeiras e cansaço: um contexto mais amplo
A pesquisa mostra que a saúde mental precisa ser compreendida em conjunto com as condições materiais e as pressões do cotidiano. A preocupação financeira foi relatada por 78,1% dos participantes, sendo uma das queixas mais frequentes do levantamento. Entre aqueles que relataram preocupação com dinheiro três vezes ou mais no período investigado, o ICASM foi de 558 pontos, contra 825 entre os que não relataram essa preocupação.
As dificuldades econômicas podem envolver insegurança sobre o pagamento de contas, receio de perder o emprego, endividamento ou preocupação com as necessidades da família. Quando essas questões se prolongam, podem ocupar grande parte da atenção e dificultar o descanso, a convivência e o planejamento do futuro.
Isso não significa que a falta de dinheiro determine necessariamente sofrimento psicológico. Significa que a segurança financeira e as condições de vida fazem parte do contexto em que a saúde mental se desenvolve.
O papel do sono e da energia no cotidiano
O levantamento também identificou que 70,6% dos entrevistados dormiram menos de seis horas pelo menos uma vez durante o período pesquisado, enquanto 68,8% relataram cansaço ou pouca energia.
Esses dados precisam ser interpretados com cuidado. Ter uma noite de sono curta ou sentir cansaço ocasionalmente não significa, por si só, ter um problema de saúde mental. Entretanto, dificuldades frequentes para dormir, falta persistente de energia e alterações no interesse pelas atividades podem merecer atenção, sobretudo quando interferem no trabalho, nos relacionamentos ou nos cuidados pessoais.
Sono, estresse, condições físicas, responsabilidades familiares e sofrimento emocional podem se influenciar mutuamente. Uma pessoa preocupada com problemas financeiros, por exemplo, pode ter dificuldade para descansar; o cansaço acumulado, por sua vez, pode tornar as tarefas diárias mais difíceis.
Por isso, é importante evitar explicações únicas para problemas complexos. Nem toda dificuldade emocional decorre da solidão, assim como nem todo cansaço pode ser explicado por questões psicológicas.
O que os resultados entre os jovens indicam?
Entre os participantes de 16 a 24 anos, 83,6% relataram pouco interesse ou prazer em fazer as coisas, e 70,5% disseram ter se sentido para baixo ou deprimidos no período investigado. Esses resultados merecem atenção, mas não permitem afirmar que todos os jovens que relataram essas experiências tenham depressão.
O interesse pelas atividades, o humor e a disposição podem variar conforme o contexto. Quando a falta de prazer, o desânimo ou outras dificuldades emocionais se tornam persistentes e prejudicam a vida cotidiana, pode ser importante procurar uma avaliação profissional.
A transição para a vida adulta pode envolver mudanças nos estudos, no trabalho, na renda, nos relacionamentos e nas expectativas pessoais. As experiências são diversas, e não se deve presumir que todos os jovens enfrentem as mesmas pressões ou reajam a elas da mesma maneira.
O resultado mais útil é o reconhecimento de que o bem-estar emocional precisa ser acompanhado com atenção, sem transformar estatísticas populacionais em diagnósticos individuais.
O uso da inteligência artificial para enfrentar a solidão
Outro aspecto investigado pelo Panorama da Saúde Mental 2026 foi a utilização de ferramentas de inteligência artificial (IA). Segundo a reportagem da Folha de S.Paulo, 86,4% dos entrevistados já haviam utilizado alguma ferramenta de IA. Na área da saúde mental, 15% relataram recorrer a essas ferramentas em momentos de crise, 9,1% disseram ter utilizado chatbots como forma de terapia e 8,8% afirmaram ter buscado a tecnologia para se sentir menos sozinhos.
Entre os participantes que relataram sentir solidão três vezes ou mais, 32,1% disseram ter recorrido à IA em busca de companhia. Entre aqueles que não relataram solidão, esse percentual foi de 1,8%.
A diferença chama a atenção para a relação entre a desconexão social e a procura por ferramentas digitais. Entretanto, os dados não esclarecem, por si só, se a utilização da IA contribui para o isolamento, se funciona como um recurso temporário para pessoas que já se sentem sozinhas ou se essas duas situações podem ocorrer em determinados casos.
A tecnologia pode ajudar, mas não substitui automaticamente o vínculo humano
Uma ferramenta de IA pode ajudar a organizar pensamentos, encontrar informações educativas e estruturar questões que alguém deseja discutir com um profissional. Para algumas pessoas, conversar com uma ferramenta digital também pode ser uma maneira acessível de expressar preocupações que ainda não conseguiram compartilhar com outras pessoas.
É importante, porém, reconhecer os limites dessa interação. Uma conversa com um sistema automatizado não equivale a uma relação humana recíproca e não garante avaliação clínica, acompanhamento contínuo ou compreensão completa da situação individual.
No contexto da solidão, o principal cuidado é evitar que a facilidade de conversar com uma ferramenta digital substitua todas as oportunidades de contato humano. Se a tecnologia estiver sendo utilizada como apoio, pode ser útil combiná-la com outras formas de cuidado e convivência, conforme as possibilidades de cada pessoa.
A inteligência artificial pode funcionar como um recurso complementar, mas não deve ser tratada como substituta universal de amizades, vínculos afetivos ou atendimento profissional. Quando há sofrimento emocional intenso, a busca por apoio humano qualificado continua sendo importante.
O combate à solidão também depende de políticas públicas
Os resultados do levantamento ajudam a ampliar o debate para além das escolhas individuais. Embora cada pessoa tenha suas próprias necessidades de convivência, as oportunidades de estabelecer vínculos dependem, em parte, das condições oferecidas pelo ambiente em que vive.
Um bairro sem espaços públicos seguros, uma rotina de trabalho incompatível com atividades comunitárias, a falta de transporte acessível ou o custo elevado do lazer podem dificultar o contato social. Essas barreiras não são resolvidas simplesmente recomendando que alguém saia mais de casa ou faça novas amizades.
Em seu relatório de 2025, a OMS defendeu que a conexão social receba atenção compatível com sua importância para a saúde e o bem-estar, com iniciativas capazes de fortalecer os vínculos nas comunidades.
Organização Mundial da Saúde
Entre as medidas que podem ampliar as oportunidades de convivência estão:
- Espaços públicos seguros e acessíveis, como parques, praças e áreas de lazer.
- Atividades culturais e esportivas comunitárias, com opções compatíveis com diferentes idades e condições financeiras.
- Transporte acessível, que facilite a participação em atividades e o contato com outras pessoas.
- Projetos de voluntariado e aprendizagem, que favoreçam a participação social e a troca de experiências.
- Serviços de saúde preparados para reconhecer necessidades de apoio social, considerando a realidade de cada pessoa.
O que é prescrição social?
A prescrição social é uma abordagem que busca conectar pessoas a atividades, grupos e recursos disponíveis na comunidade como parte de uma estratégia mais ampla de cuidado. Em vez de considerar apenas as necessidades clínicas, o profissional também pode explorar oportunidades de convivência, participação cultural, atividade física ou aprendizagem que sejam adequadas à situação individual.
Na reportagem sobre a pesquisa brasileira, foram citadas experiências de médicos de família em Florianópolis que sugerem atividades comunitárias e a retomada dos estudos a pacientes, conforme suas necessidades e possibilidades.
A proposta não consiste em afirmar que participar de um grupo resolverá um problema emocional. Trata-se de reconhecer que a saúde também é influenciada pelas relações sociais e pelas oportunidades disponíveis fora dos serviços de saúde.
Para que essa abordagem seja viável, é necessário que existam atividades acessíveis, que a pessoa tenha liberdade para escolher o que faz sentido para ela e que a participação comunitária não substitua os cuidados clínicos quando estes forem necessários.
O que pode ajudar a fortalecer os vínculos no dia a dia
Embora o enfrentamento da solidão não dependa exclusivamente de iniciativas individuais, algumas atitudes podem ajudar a ampliar as oportunidades de contato e apoio. O objetivo não é preencher todos os momentos livres com atividades sociais, mas encontrar formas de convivência que sejam significativas e possíveis dentro da realidade de cada pessoa.
Algumas alternativas incluem:
- Retomar um contato importante: enviar uma mensagem ou fazer uma ligação para alguém com quem existe uma relação de confiança.
- Estabelecer encontros possíveis: combinar um café, uma caminhada ou uma conversa, sem exigir que a convivência aconteça com grande frequência.
- Participar de atividades de interesse pessoal: considerar cursos, grupos culturais, atividades físicas ou projetos comunitários.
- Investir na qualidade das relações existentes: reservar tempo para conversas em que haja espaço para escutar, compartilhar experiências e pedir apoio.
- Reconhecer relações que causam sofrimento: quando há conflitos persistentes, desrespeito ou violência, avaliar limites e procurar apoio pode ser mais importante do que ampliar o número de contatos.
- Considerar as próprias limitações: dificuldades financeiras, mobilidade reduzida, responsabilidades familiares e horários de trabalho precisam ser levados em conta ao planejar mudanças na rotina.
Não é necessário realizar todas essas atividades nem transformar a vida social em uma obrigação. Para algumas pessoas, começar com uma conversa já pode ser um passo viável. Para outras, pode ser necessário primeiro compreender o que está dificultando a aproximação, especialmente quando há medo de rejeição, conflitos anteriores ou sofrimento emocional.
Também é importante respeitar quem aprecia a própria companhia. O objetivo não é eliminar os momentos de solitude, mas distinguir uma escolha satisfatória de uma situação em que a pessoa sente falta de vínculos e não consegue encontrar o apoio de que necessita.
Quando vale a pena buscar ajuda profissional?
Sentir solidão em determinados momentos da vida é uma experiência humana possível. Mudanças de cidade, separações, luto, aposentadoria, alterações na rotina e afastamento de pessoas importantes podem modificar a maneira como alguém se relaciona com o mundo.
A atenção merece ser ampliada quando o sentimento se torna persistente, provoca sofrimento significativo ou começa a interferir na rotina, nos relacionamentos, no sono, no trabalho ou no interesse pelas atividades habituais.
Nessas situações, conversar com um psicólogo, psiquiatra ou outro profissional de saúde qualificado pode ajudar a compreender o contexto e avaliar quais formas de apoio são adequadas. A avaliação deve considerar a história individual, as circunstâncias atuais e outras possíveis explicações para o sofrimento, sem presumir que a solidão represente necessariamente um transtorno mental.
Também é possível procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para receber orientação e conhecer os recursos disponíveis na rede pública.
Pedir ajuda não significa que a pessoa falhou em construir relacionamentos ou que deveria conseguir resolver tudo sozinha. As dificuldades emocionais podem envolver fatores pessoais, familiares, sociais e econômicos que não estão inteiramente sob o controle individual.
Se houver sofrimento intenso, risco de autoagressão ou pensamentos de suicídio, é importante buscar atendimento imediato. Em uma emergência, procure um serviço de urgência ou ligue para o SAMU, pelo número 192. O CVV oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, mas não substitui o atendimento de emergência quando há perigo imediato.
Perguntas frequentes sobre solidão e saúde mental
Sentir solidão significa ter depressão?
Não. A solidão é uma experiência subjetiva e não constitui, isoladamente, um diagnóstico de depressão. Ela pode ocorrer em diferentes momentos da vida, inclusive entre pessoas sem transtornos mentais. Quando o sofrimento é persistente ou interfere na rotina, uma avaliação profissional pode ajudar a esclarecer o que está acontecendo.
É possível sentir solidão mesmo estando rodeado de pessoas?
Sim. A solidão está relacionada à percepção de que os vínculos disponíveis não correspondem às necessidades de conexão e apoio da pessoa. Por isso, alguém pode manter muitos contatos sociais e ainda sentir falta de relações em que consiga compartilhar preocupações e experiências de maneira significativa.
Encontrar amigos pode melhorar a saúde mental?
O Panorama da Saúde Mental 2026 encontrou uma associação entre encontros com amigos e pontuações mais altas no ICASM. Entretanto, a pesquisa não comprova que esses encontros, isoladamente, sejam responsáveis pela diferença. A qualidade das relações, as condições de vida e outros fatores também precisam ser considerados.
Usar inteligência artificial para conversar sobre sentimentos é uma boa opção?
A IA pode oferecer informações gerais e ajudar a organizar pensamentos, mas possui limitações e não substitui automaticamente relações humanas ou acompanhamento profissional. Se a solidão ou o sofrimento emocional estiverem persistentes, é importante considerar também formas de apoio humano.
O que a pesquisa permite concluir sobre a solidão no Brasil
O Panorama da Saúde Mental 2026 destaca a solidão como uma questão relevante para compreender o bem-estar psicológico no país. Os 36,5% de entrevistados que relataram esse sentimento e a diferença entre as pontuações do ICASM mostram uma associação expressiva que merece atenção tanto de pesquisadores quanto de profissionais de saúde e responsáveis por políticas públicas.
O levantamento também aponta para a importância das relações sociais, das atividades compartilhadas e das condições materiais da vida cotidiana. Encontrar amigos, participar de atividades comunitárias e ter acesso a espaços de convivência são experiências que podem favorecer conexões significativas, embora não representem soluções universais para todas as dificuldades emocionais.
É necessário, porém, reconhecer os limites dos resultados. A pesquisa foi realizada pela internet, e as associações observadas não demonstram causalidade. Além disso, a solidão foi incorporada ao levantamento em 2026, de modo que ainda não existe uma série histórica desse indicador dentro do Panorama que permita acompanhar sua evolução ao longo dos anos.
A principal mensagem é que a solidão não deve ser interpretada como uma falha individual nem confundida com a simples ausência de companhia. Ela precisa ser compreendida em relação à qualidade dos vínculos, às necessidades de cada pessoa e às condições sociais que facilitam ou dificultam a convivência.
Fortalecer a conexão social exige espaço para escolhas individuais, mas também comunidades acessíveis, oportunidades reais de participação e serviços de saúde capazes de acolher quem precisa de apoio. Compreender essa dimensão da saúde mental é um passo importante para construir respostas mais humanas, realistas e responsáveis.
Fontes e referências
1. Folha de S.Paulo — Cláudia Collucci. Solidão é o fator mais ligado à pior saúde mental no Brasil, mostra pesquisa. Publicado em 24 de outubro de 2026. Reportagem sobre o Panorama da Saúde Mental 2026, realizado pelo Instituto Cactus e pela AtlasIntel. Acessar a reportagem original.
2. Organização Mundial da Saúde (OMS). From loneliness to social connection: charting a path to healthier societies. Relatório da Comissão da OMS sobre Conexão Social, publicado em 30 de junho de 2025. Documento institucional sobre os impactos da solidão e do isolamento social e a importância de fortalecer conexões sociais. Acessar o relatório.
Organização Mundial da Saúde
3. Organização Mundial da Saúde (OMS). Social connection. Perguntas e respostas, publicadas em 30 de junho de 2025. Material institucional que diferencia conexão social, isolamento social e solidão. Consultar a página oficial.
Organização Mundial da Saúde
Limitação das fontes: os números específicos do Panorama da Saúde Mental 2026 foram obtidos na reportagem da Folha de S.Paulo. Não foi localizada, nesta apuração, uma publicação científica original do levantamento com metodologia completa, questionário e tabelas detalhadas. Por isso, os resultados foram atribuídos à pesquisa conforme divulgados pela reportagem, sem tratá-los como comprovação de causalidade.
